Imagens de Fernando Pires captadas na sexta, Centro de Porto Alegre


UM DESFILE DE PERGUNTAS E RESPOSTAS

De seus muitos méritos, o que mais me fascina no Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre é o dia em que os grupos ocupam quase simultaneamenteo centro da cidade, oferecendo um port-folio de projetos e estéticas de como fazer teatro de rua (e também teatro na rua). Sexta passada não foi diferente. Na condição de espectador que pode circular por cinco, seis espetáculos simplesmente andando 30 metros, me engajei novamente na expedição teatro a dentro.

Ante de comentar as montagens que conferi, devo apontar que percebo o teatro de rua em um momento de crise. Não que isso seja ruim - ou talvez seja uma condição permanente, não é? Mas a crise que percebo é fruto de uma série de muddanças urbanas, sociais e políticas que marcaram os últimos 30 anos. Teatro de rua, na época da ditadura, era uma afronta, um bastião de liberdade, uma afirmação da calçada como palco de declaração política. Nas últimas décadas, o Centro de porto Alegre (e, creio, de outras grandes cidades brasileiras) mudou de perfil - já não há cinemas, tornou-se praticamente um terminal de transbordo para quem anda de ônibus, boa parte da classe média transferiu suas compras para os shoppings com ar climatizado. O tempo é mais escasso, a sensibilidade do público ao que é estranho diminuiu - naufrágios, assassinatos, tsunamis e acidentes são registrados em celulares e transmitidos em rede mundial. Questionado em sua função política mais evidente, enfraquecido em seu potencial de apelo à curiosidade do público, o teatro de rua vive uma crise, se não! Acresce-se a isso as dificuldades: caso o grupo se contente em um teatro de rua roots, moldado a partir de corpo, voz, improvisação e adereços, tudo bem; mas, se a trupe quer contar com recursos adicionais de cenografia, som e luz (e esta vertente que demanda recursos maiores de produção se mostrou com força neste festival), a coisa engrossa.

As respostas variam de grupo para grupo e quanto às condições de produção - a noite de sexta foi um desfile de soluções e de perguntas. No post a seguir comento alguns destaques que não são da cena gaúcha.

Olho da rua

O coletivo que mais me agradou da noite de sexta do Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre foi a Brava Cia (SP), que propõe uma história de ficção científica, uma bolha que envolve a cidade. A técnica praticada em “Este Lado para cima - isto não é um Espetáculo” é ótima e diversa: explosões para surpreender o público, frases-chave ditas em uníssono, rigor gestual que define uma teatralidade, e humor - muito humor. É uma achado o mote da história ser os poderosos afirmarem que vão salvar a cidade porque tudo está em crise - se o Brava Cia conseguiu que alguns espectadores relativizassem a ameaça que nos é brandida em ameaça pela palavra crise (até eu falo de crise neste texto), já foi uma conquista política e tanto. Eles mesmo definem seu método ao declararem que vão encenar e não ensinar uma história. Concordo - Brecht, ele mesmo, pregava que a missão política do teatro deveria vir embalada no formato de espetáculo fascinante. Só achei que “Este Lado para cima” foi muito longo em duração.
A encenação do Grupo Andante (MG) para “A História de Édipo” não me impressionou, apesar de reconhecer a qualidade técnica do elenco. Reverente à trama do filho incestuoso mais famoso da cultura ocidental, o que o Andante propõe é teatro na rua: com o valioso uso de máscaras, guitarra, iluminação e microfones sem fio para os atores, a ação se passa em uma estrutura tubular basicamente dividida em dois níveis. Facilita a visão do público, se destaca no panorama da cidade, mas não me sugere uma técnica que aproveite a paisagem urbana e os conflitos  imediatos de quem circula pela rua como seu objeto de trabalho e de prazer. E pratico um critério: se o espetáculo de rua for transferido para uma sala fechada, preferencialmente de arena, e nada ou pouco perder, talvez seja o caso de se perguntar se deve de fato estar sendo encenada na rua.
A Grande Cia Brasileira de Mysterios e Novidades (RJ) trouxe uma superprodução. Em “A Saga de Jorge”, usam pernas-de-pau, fogo, tambores e sopros amplificados. É como uma superprodução de teatro de rua, um espetáculo que exercita seu impacto especialmente em grandes espaços.Confesso que não me tocou - as pernas-de-pau garantem visibilidade, mas distanciam os personagens do público, a força visual e sonora era tal que o público se retraía pela força estésica d‘“A Saga de Jorge”. Já o grupo O Buraco d’Oráculo vai na outra direção. Construído a partir das experiências de moradores da empobrecida zona leste da cidade de São Paulo, é quase como teatro-jornal. O início da encenação, confesso que me seduziu. Não havia ainda roda, os personagens expunham suas experiências e dialogavam com o público sem a proteção da “cena”. Era um teatro em pequeníssima escala, corpo a corpo, e bastante eficiente e emocional. Depois, criada a roda, “Ser tão ser - Narrativas de outra margem” assumiu um formato mais tradicional, e me desinteressei. Como escrevi antes: um cortejo de soluções e problemas, visões para se fruir e discutir.

“Flutuações”, em foo de Giancarlo Mecarelli

Na corrente da imaginação

Preparado para um choquezinho estético básico? A chance é hoje, 15h e 20h no Teatro Bruno Kiefer, na plateia de “Flutuações” do grupo fluminense Contadores de Estórias. Não uso a palavra choque gratuitamente. O coletivo comandado por Marcos e Rachel Ribas há 40 anos vem trabalhando na invenção de um ritmo e uma estética próprios. “Flutuações” é mais uma prova que conseguiram.

Já no programa, Marcos confessa que quer contar “uma estória sem pressa”. É isso que está no palco: a ação começa no Japão e termina em Paraty, no estado do Rio, mas os 60 minutos d espetáculo se passam mesmo na nossa imaginação, habilmente desacelerada pelos contadores de estória, repentinamente atenta aos detalhes, aos pequenos gestos, às grandes intenções que se escondem no cotidiano.

No início da carreira, Marcos e Rachel trabalhavam apenas com bonecos, depois incorporaram atores e bailarinos à cena. Isso potencializou o trabalho. Tentando explicar: você até pode tentar procurar algum tipo de narrativa em “Flutuações”, mas, desculpem o trocadilho, vai acabar boiando. O que deve ser buscado é a afinação com o clima da peça, com o jeito manso de contar uma história que não tem fim – nem começo – que é o aqui-agora. Aproveite a marcação de cena perfeita, o trânsito de cores e gestos delicado, a habilidade no manejo dos bonecos, a ausência de palavras.

Detalhando quando falo em potencializar. Um dos mecanismos clássicos do teatro é a possibilidade de o espectador se projetar em um personagem – isso dito sem entrarmos em méritos de pós-dramas ou dramas ou performances. “Flutuações” potencializa isso de várias maneiras. Primeiro, em cenas que contrapõem gestos de bonecos e atores – os humanos se desumanizam, ou é o contrário? Segundo, ao encenar suas já características cenas de sexo com os bonecos – delicadas e de um realismo impressionante, como sempre – Marcos e Rachel colocam provocam o espectador ao propor que ele se projete em um boneco. Seria mais fácil? O espectador se sente mais à vontade? Como eu poderia me projetar em um boneco?
Mas assista a “Flutuações” sem se importar com estas elocubrações estéticas: é inútil e desaconselhado buscar narrativa, sentidos ou intenções. Basta se deixar levar na corrente de imagens e surpresas que os Contadores de Estórias nos prepararam, e sair da Bruno Kiefer com um sorriso discreto mas persistente no rosto. É a sensação de ter sido parceiro de uma grande obra de arte.

Ingressos: R$ 20

Duração: 60 minutos

Da série “Canções que eu gostaria de ter composto”.

Comentário de “Os Credores” - publicado originalmente no blog do Em Cena

Sandra Corveloni, em “Os Credores”, na foto de Mariano Czarnobai/Divulgação PMPA

Impossível não sentar na plateia da Álvaro Moreyra sem levar em conta o que eu já sabia sobre Eduardo Tolentino e o TAPA: um grupo coeso e coerente, cujos trabalhos se caracterizam pela excelente direção de atores e pelo cuidado ao remontagem de autores clássicos, como Vianninha, Tchekov, Plinio Marcos, Oscar Wilde, Nelson Rodrigues e Molière. O gênio da vez era Auguste Strindberg (1849-1912), e o texto, Os credores. As perspectivas eram as melhores, mas Os credores ficou devendo.

A trama escrita em 1888 segue o figurino impiedoso de Strindberg, especialista em expor as mazelas de instituições como a Família e o Casamento. Uma amostra da, digamos, reserva que o dramaturgo sueco dedicava às instituições pode ser medida por uma de suas frases mais famosas: “Família, tu és a morada de todos os vícios da sociedade; tu és a casa de repouso das mulheres que amam as suas asas, a prisão do pai de família e o inferno das crianças”.

Em Os credores, a “família” é composta pela exuberante Tekla (Sandra Corveloni), seu marido, o pintor e escultor Adolf (José Roberto Jardim), e seu ex-marido, Gustav (Sergio Mastropasqua). O descornado Gustav encontra Adolf por acaso em um hotel de praia, e envenena seu sucessor contra a independência de Tekla. O manipulador Gustav é tão inteligente como despeitado: garante a Adolf que vai seduzir Tekla, e o convida a que observe a conquista. Dito e feito. O resultado destroi por igual os três: Adolf perde de uma tacada só sua mulher, sua inspiração e seu orgulho de macho. A autoconfiante Tekla precisará conviver com a humilhação de ser prisoneira de seus instintos. O vencedor Gustav sai do jogo sem o “prêmio” maior: sua ex-mulher.

Esse triângulo desamoroso é contado com falas diretas e com humor ácido, animado por um elenco afiado, ambientado em cenário adequadamente despojado e sob luz rigorosa. Além disso, assistir a um texto de Strindberg é compromisso de qualquer um que queira conhecer os gigantes da dramaturgia ocidental. O que deu errado, então, em Os credores? Em minha opinião, a montagem se submete quase que absolutamente ao texto de Strindberg, abrindo mão de recursos de teatralidade que poderiam potencializar a guerra dos sexos travada em cena.
O palco pode ser descrito basicamente como um grande corredor dividido em três partes. Em uma das pontas, fica a sauna onde Gustav catequiza Adolf. No terço central, o espaço onde se dão os encontros e a sedução. A outra ponta é dominada por uma escultura em gelo, que derrete ao longo dos 80 minutos de peça. A escultura em gelo, por exemplo: chama a atenção, mas remete a quê? Ao relacionamento que se desgasta progressivamente? Ao objeto de desejo que se molda às necessidades de cada um? Nada que se imponha. O personagem de Adolf, como se para enfatizar a sua incapacidade de andar pelas próprias pernas e amar pelos próprios sentimentos, usa muletas e as abandona por alguns momentos ao final, quando vai (tentar) intimar Tekla. Previsível.

Fiquei com a incômoda sensação que não perceberia uma diferença considerável entre assistir à peça ou ler o texto em um livro, e isso é fatal quando se quer garantir o comprometimento e a parceria criativa do espectador. Os credores fica, assim, recomendado para quem é fã de carteirinha de teatro de texto, e se disponha a superar momentos de monotonia pela inquebrantável fé na literatura dramática. Quem busca uma linguagem contemporânea ou uma atualização formal da obra de Strindberg vai ficar no prejuízo.

Os pterodátilos foram extintos?

Confesso que não assisti a “Pterodátilos”, e estou desabilitado por isso de participar das discussões acirradas no Facebook a esse respeito. Mas vou me dar o direito de opinar sobre esse incidente, que acabou invadindo blogosfera, mesas de bar e aulas de Mestrado.

O ponto de partida da polêmica parece ter sido quando a diretora Patricia Fagundes comentou “Pterodátilos” no blog do Porto Alegre Em Cena. Um anônimo teria postado um comentário ofensivo a Patricia no mesmo blog. Além disso, Daniel Colin e outras pessoas, via FB, relativizaram a qualidade da montagem de Felipe Hirsch, lembrando “Extinção”, direção do gaúcho João de Ricardo inspirada no mesmo texto de Nicky Silver, que esteve em cartaz em 2005. O  Facebook ficou atrolhado de comentários de parte a parte, uns acusando “Pterodátilos” de praticar um tom escrachado ao estilo “Sai de Baixo”, outros elogiando o cenário semovente de Daniela Thomas, alguns criticando Marco Nanini, outros afirmando a dificuldade em comparar o resultado final do trabalho que criadores diferentes fazem do mesmo tema ou texto.

Olhando assim, parece maravilhoso – há discussão estética em Porto Alegre. Sou um pouco mais cético. O imbroglio todo parece confirmar uma impressão que trago há algum tempo: a internet democratizou a informação e a opinião ao retirar da grande mídia a exclusividade dos meios de comunicação, mas, ao mesmo tempo, promoveu o achismo e a inconsequência de uma mesa de bar ao status de discussão de conceitos e ideias. Claro que essa afirmação, vinda de alguém que ocupou 15 anos em um veículo da tal Grande Imprensa, pode parecer um discurso saudosista. Mas, acompanhem meu raciocínio – não quero convencer pelo “eu acho”, mas pelo “eu penso que as coisas funcionam assim, tento explicar, e quero saber o que você acha”.

No tempo em que grandes dinossauros da imprensa ainda não estavam em extinção, as notícias e os comentários eram triados, para bem e/ou para mal, pelos filtros das redações ou de quem editava a seção de cartas do leitor. Reinavam os críticos de arte, com poderes de vida e morte sobre o que se fazia na cidade. Veio a internet, junto vieram as redes sociais, e a opinião tornou-se moeda fácil – criaram-se canais de ligação direta entre o público, aboliu-se a todo-poderosa mídia como definidora de o que deve ser discutido, como e por quê.

Multiplicaram-se os blogs, locais privilegiados para a discussão de ideias. O twitter virou o jogo e é ali agora que os repórteres procuram suas pautas. A questão é: como  encontrar as opiniões relacionadas com o que me atrai ou me estimula? O que percebo, é que o jogo de poder que se atribui à Grande Imprensa também está presente no prestígio dos retweets e nos formadores de opinião das redes sociais. Mas isso é um problema mais amplo que merece reflexão em outros posts.

Voltando ao dossiê “Pterodátilos”. Em primeiro lugar, não vejo por que dedicar uma linha a quem posta algo como “Anônimo” - na verdade, eu não teria sequer postado algo de quem não se identifica, nem que fosse para aumentar o QP – coeficiente de polêmica do blog… Em segundo lugar: por que tanta atenção sobre a montagem de Hirsch? Há poucos dias, o Sated promoveu uma passeata exigindo a manutenção dos índices legais de verba do Fumproarte e não vi nem sombra de discussão no FB.

Creio que a discussão sobre o anônimo esconde problemas que não querem calar: por que as atrações de fora são mais valorizadas que as locais? Por que a produção local não tem, ao longo do ano, os mesmos recursos de produção que as atrações de fora contam durante o Em Cena? Estar longe demais das capitais – do centro do País - condena os talentos da periferia a optarem pela migração, se não quiserem ter seu futuro truncado pelos vícios da província? Por que aqueles que estão perto de mim não me olham com a atenção devida? É uma discussão antiga, mas não foi superada.

E, ah, “Extinção” era muito boa.

Comentário de “Bethânia e as Palavras”
Foto de João Milet Meirelles
A respeito do show “Bethânia e as Palavras”, eu poderia falar sobre palavras, Bethânia ou show – mas prefiro falar sobre um país. É que na verdade, o que presenciei – e participei – na noite de sexta-feira, foi a fundação de um país com alicerces fincados na delicadeza, no poder dos versos, na ilusão de que a arte pode resgatar um ente querido chamado Brasil.Por força da profissão de jornalista, mormente na área de cultura, estabeleci desde há muito tempo uma relação de respeito e admiração pela dimensão artística de Maria Bethânia, mas confesso que raramente coloquei um CD dela para ouvir por fruição pessoal. A baiana sempre me transmitiu uma sensação demasiada de alguém que se sente imbuída de uma missão, ungida para iluminar os pobres mortais. Sempre avaliei seus shows como expressões exuberantes e quase barrocas de uma personalidade potente como sua voz, mas pontilhados de desafinações, certamente devido àquelas correrias no palco, à ânsia de dominar o espaço cênico, a imaginação do público, o mundo todo.“Bethânia e as Palavras” não é nada disso. Ou é muito além disso. Acompanhada apenas pelo violonista Luiz Brasil e pelo percussionista Carlos César, a cantora mistura os versos de Fernando Pessoa, de Guimarães Rosa, de Castro Alves e da professora de primário dela e de Caetano em Santo Amaro da Purificação, entre outros vates da língua portuguesa, com trechos de canções como “ABC do Sertão” (Luiz Gonzaga), “Último Pau de Arara” (J.Guimarães/Venâncio/Corumbá), “Dança da Solidão” (Paulinho da Viola), “Felicidade” (Lupicinio Rodrigues) e “Menino de Jaçanã” (Luis Vieira/Arnaldo Passos). O repertório de  música e versos selecionado por Bethânia, com a colaboração de Hermano Vianna e Elias Andreatto, um grande pot-pourri celebratório da nossa língua e dos nossos sentimentos, obtém um resultado fascinante. Se, por um lado, as canções fazem estalar emoções instantâneas, flashes de arrebatamento, por outro, o som dos versos cala mais fundo, remexe memórias, promove a reflexão.Contida em cena, meio atrapalhada pela necessidade de usar óculos para ler os textos, Maria Bethânia fica livre para impressionar por meio de pequenos gestos e tranquila para emitir sua grande voz, sem os desgastes aeróbicos das famosas correrias de Maria. É nitroglicerina pura. O texto (das músicas, das poesias e da cena) é embalado em sonoridades acústicas às vezes pungentes e sempre com indisfarçável convicção. O país se ergue, com a população de quem está no palco, somado ao público, e engrossado pelas lembranças e emoções de todos. Há o som grave e já com marcas do tempo do timbre de Bethânia, o paraíso perdido rural evocado pelo riscar da viola, o pé no chão ecoando na batida do no tambor. E explode a intérprete que consegue uma releitura de “Romaria” (Renato Teixeira) à altura de Elis Regina.Três autores incluídos no dream team do show concordam comigo: Caetano Veloso repetiu Fernando Pessoa com o verso “Minha Pátria é minha língua”, enquanto o moçambicano José Craveirinha escreveu em sua autobiografia: “Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.” Fomos todos cidadãos, orgulhosos de nossa língua e de nossa sensibilidade, guiados de maneira sutil por Bethânia. Pensar que esse delicado espetáculo estava no centro de uma polêmica ruidosa envolvendo a criação de um site financiado por leis de incentivo… (a cantora, há alguns dias, teria declarado que desistira da ideia para dedicar-se a outros projetos). No final do show, choveram pétalas brancas no palco, jogadas por parte do público.  Foi a imagem perfeita: que esse país germine dentro de nós.

Comentário de “Bethânia e as Palavras”

Foto de João Milet Meirelles

A respeito do show “Bethânia e as Palavras”, eu poderia falar sobre palavras, Bethânia ou show – mas prefiro falar sobre um país. É que na verdade, o que presenciei – e participei – na noite de sexta-feira, foi a fundação de um país com alicerces fincados na delicadeza, no poder dos versos, na ilusão de que a arte pode resgatar um ente querido chamado Brasil.
Por força da profissão de jornalista, mormente na área de cultura, estabeleci desde há muito tempo uma relação de respeito e admiração pela dimensão artística de Maria Bethânia, mas confesso que raramente coloquei um CD dela para ouvir por fruição pessoal. A baiana sempre me transmitiu uma sensação demasiada de alguém que se sente imbuída de uma missão, ungida para iluminar os pobres mortais. Sempre avaliei seus shows como expressões exuberantes e quase barrocas de uma personalidade potente como sua voz, mas pontilhados de desafinações, certamente devido àquelas correrias no palco, à ânsia de dominar o espaço cênico, a imaginação do público, o mundo todo.
“Bethânia e as Palavras” não é nada disso. Ou é muito além disso. Acompanhada apenas pelo violonista Luiz Brasil e pelo percussionista Carlos César, a cantora mistura os versos de Fernando Pessoa, de Guimarães Rosa, de Castro Alves e da professora de primário dela e de Caetano em Santo Amaro da Purificação, entre outros vates da língua portuguesa, com trechos de canções como “ABC do Sertão” (Luiz Gonzaga), “Último Pau de Arara” (J.Guimarães/Venâncio/Corumbá), “Dança da Solidão” (Paulinho da Viola), “Felicidade” (Lupicinio Rodrigues) e “Menino de Jaçanã” (Luis Vieira/Arnaldo Passos). O repertório de  música e versos selecionado por Bethânia, com a colaboração de Hermano Vianna e Elias Andreatto, um grande pot-pourri celebratório da nossa língua e dos nossos sentimentos, obtém um resultado fascinante. Se, por um lado, as canções fazem estalar emoções instantâneas, flashes de arrebatamento, por outro, o som dos versos cala mais fundo, remexe memórias, promove a reflexão.
Contida em cena, meio atrapalhada pela necessidade de usar óculos para ler os textos, Maria Bethânia fica livre para impressionar por meio de pequenos gestos e tranquila para emitir sua grande voz, sem os desgastes aeróbicos das famosas correrias de Maria. É nitroglicerina pura. O texto (das músicas, das poesias e da cena) é embalado em sonoridades acústicas às vezes pungentes e sempre com indisfarçável convicção. O país se ergue, com a população de quem está no palco, somado ao público, e engrossado pelas lembranças e emoções de todos. Há o som grave e já com marcas do tempo do timbre de Bethânia, o paraíso perdido rural evocado pelo riscar da viola, o pé no chão ecoando na batida do no tambor. E explode a intérprete que consegue uma releitura de “Romaria” (Renato Teixeira) à altura de Elis Regina.
Três autores incluídos no dream team do show concordam comigo: Caetano Veloso repetiu Fernando Pessoa com o verso “Minha Pátria é minha língua”, enquanto o moçambicano José Craveirinha escreveu em sua autobiografia: “Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.” Fomos todos cidadãos, orgulhosos de nossa língua e de nossa sensibilidade, guiados de maneira sutil por Bethânia. Pensar que esse delicado espetáculo estava no centro de uma polêmica ruidosa envolvendo a criação de um site financiado por leis de incentivo… (a cantora, há alguns dias, teria declarado que desistira da ideia para dedicar-se a outros projetos). No final do show, choveram pétalas brancas no palco, jogadas por parte do público.  Foi a imagem perfeita: que esse país germine dentro de nós.

Comentário de “O Mapa” - Marrocos é aqui (e em qualquer lugar)
“O Mapa” encenado no DAD, em fotos de Luiza Mendonça

Um dos melhores espetáculos locais que assisti este ano estará em cartaz na terça-feira, no Tepa, dentro da programação do Em Cena: “O Mapa_Cristóvão 400”. Na verdade, a montagem a que assisti chamava-se “O Mapa_Casarão 363”, e teve por palco o Solar do IAB  instalado no número 363 da Rua General Canabarro. A explicação da duplicidade de nomes é simples, embora as implicações disso sejam complexas: o grupo Teatro Geográfico marca seu trabalho por montar seus textos em locais alternativos, incorporando a história, a arquitetura e a aura do lugar à encenação.


O texto base, com dramaturgia da diretora Tatiana Vinhais e de Diones Camargo, se baseia no livro “O Céu que nos Protege”, de Paul Bowles. A trama do livro, lançado em 1949, é conduzida pelo casal de americanos Kit e Port Moresby, que parte para Marrocos na tentativa de redescobrir-se. Lá, eles encontram mais perguntas que respostas: uma cultura quase alien, uma sensualidade diferente, objetivos de vida diversos, parasitas que exterminam ciivilizados, revelações que desmentem sonhos – uma estranheza de tal monta que eles só podem recorrer ao céu para aplacar a sensação de que são estrangeiros dentro de si mesmos. Não recorrem a Deus, mas ao céu, à amplidão inominável, ao que é maior que todos, ao que é comum entre Europa e África, aos danados e aos certinhos.


Bowles defende que o olhar estrangeiro, o desterro emocional e físico podem abrir nossos olhos e espíritos ao novo. De alguma forma, sugere que o atalho para descobrir qual é o mistério da vida é voltar a ser criança,  reaprendendo a viver, purificado e alerta. Sua pregação tem um quê de escapismo, é certo, mas não seria esse um ideal de vida? Renascer a cada dia e sempre? Mas há como conciliar isso com os compromissos de adulto? Essa é uma tarefa individual? Quem seriam nossos companheiros de viagem?


Tatiana radicaliza esta visão e estes dilemas. Para ela, o mundo emocional se assemelha a um mapa sem norte, em que vários caminhos levam a Roma ou a qualquer lugar que se queira, sem nunca chegar lá. Como é o ditado? “Qualquer caminho serve quando não se sabe aonde ir”. O mapa depende do lugar, do dia, da emoção, do parceiro, do objetivo. O mapa varia sempre, só não muda o início da jornada – quando nossas dúvidas se tornam insuportáveis. Se em “O Céu que nos Protege”, Bowles dispõe as trajetórias de Kit e Port como trágica e mórbidamente complementares, Tatiana aprofunda o isolamento individual propondo duas peças em uma – parte do público segue o chamado Caminho dos Espelhos, que nos fornece o ponto de vista de Kit, e a outra parte percorre o Caminho do Tempo, que conta a história pelo viés de Port. Ou seja: se Bowles conta a história de Port e Kit, o Teatro Geográfico conta as histórias de Port e Kit. Além do que acontece, importa mais como aquilo é percebido.


A opção por lugares alternativos potencializa essa opção. Como o público não reconhece os locais (ao menos como palco), a sensação é de se peregrinar também em terra estrangeira. O fato de, às vezes, perceberem-se trechos de um e outro caminho, ou não enxergar ou escutar direito uma ação, estabelece uma multiplicação de pontos de vista, uma dispersão na narração que é produtiva na medida em que relativiza a “verdade” que eventualmente estamos acompanhando. Impossível perceber todas as paisagens da viagem.


Se a encenação surpreende e, por princípio, se retroalimenta e renova a cada mudança de lugar onde “O Mapa” se instala, cabem algumas observações quanto à atuação. Uma encenação desse tipo, com narrativa entrecortada e com cenas que se sucedem em “temperaturas” completamente diversas, é um desafio e tanto para os atores. Exige-se deles uma performance forte o suficiente para garantir o impacto sobre o público, mas pede-se também que se evite o superatuar, que acaba por alhear a plateia. Nesse campo, “O Mapa “ ainda precisa avançar, algo plenamente possível tendo em vista a juventude e o talento do elenco.


A juventude do elenco… Cabe indagar se um texto destes, que lida originalmente com os dilemas de uma geração pós-guerra, pode alcançar sua eficiência máxima com um elenco tão jovem. Respondo que sim. Na verdade, a juventude dos atores d’O Mapa abre uma outra leitura para o texto: a viagem de Port e Kit é a de todos os jovens, de todas as gerações. Confesso que me senti tocado profundamente, especialmente pela última cena – a morte de Port -, porque identifiquei ali a trajetória de vários contemporâneos meus que tiveram  literalmente suas vidas deperdiçadas pela maldição/bênção de serem jovens e ansiarem o futuro (parafraseando Maiakovsky). Port foi deletado pelo tifo, outros antes o foram pela tuberculose, muitos depois, pela Aids.


Mas, ao cabo d’O Mapa, existem espaço aberto e música, celebração da vida e da arte que redimem e confortam a todos que penamos na ambição, senão de fazer sentido, ao menos de sentir. “O Mapa” do Teatro Geográfico nos leva, afinal, a um final, que ouso dizer feliz. Não se evitem os labirintos, as terras estrangeiras, os idomas que pouco entendemos, as emoções que nada entendemos. Tomemos para nós a responsabilidade de traçarmos os nossos caminhos no mapa da vida. Os tantos Port e Kit vão olhar por nós.

A tradição da globalização

Barbosa Lessa em 1985, foto de Emilio Pedroso

Semana Farroupilha colocando as tropas na rua, e me ocorre a velha questão sobre o que é tradição, tradicionalismo, nação, way of life (que pode ser traduzido por “jeito do vivente”)… Lembrei também  de Barbosa Lessa, nome fundamental para a retomada do tradicionalismo no final dos anos 1950, e que está no centro da minha futura dissertação de mestrado. Na busca de entender quem foi e é esse fundador do nosso tradicionalismo, topei com um dos ídolos de BL no tempo em que ele estudava em São Paulo, no início dos anos 1950. Ralph Linton é um dos antropologistas americanos mais conseqüentes de meados do século passado, autor do clássico ”O Estudo do Homem” (1936), com um estilo de escrever muito pessoal bem temperado de ironia. Confiram o que ele cravou em 1937, bem antes de a globalização entrar na pauta. Observação: a tradução não é minha, e recomendo a leitura do texto original clicando no link. Será que Linton anteviu a globalização? Ou será que a globalização é uma constante na vida da Humanidade, elemento indispensável para que se evolua?

“O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos estes materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, mistas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito. Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário têm a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do século XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas. De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abissínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria-prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple, inventado pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de uma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no Norte da Europa. Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano.”

Comentário de “Out of Context” - A arte nua

“Out of Context”, em imagens de Mariano Czarnobai-Divulgação PMPA

“Out of Context” é tão bom (na verdade, um dos melhores espetáculos a que já assisti em 18 edições do Porto Alegre Em Cena) que vou me permitir começar este comentário com uma piada. Lá vai:


“Out of Context” é o sonho de consumo de qualquer produtor do mundo: os bailarinos usam apenas roupas de baixo em cena, logo não se precisa de figurinos; a função começa com os bailarinos sentados no meio da plateia, o que dispensa camarins; não há cenário, apenas algumas toalhas que o elenco dobra caprichosamente ao terminar a noite, eliminando despesas com contrarregras. Sem esquecer das possibilidades de merchandising de sutiãs e cuecas…


Agora, falando sério: “Out of Context” é um presente de virtuosismo, humor e provocação estética. A motivação principal do coreógrafo belga Alain Platel parece ter sido a de relativizar tudo, ou seja, usar a arte para afirmar que a vida é yin e yang, é feita de movimento e de imobilidade, de beleza e de fealdade, de seriedade e de riso, de movimentos harmônicos e de gestos desajeitados. Mais que isso: esses opostos se integram e se complementam. O contexto é tudo junto ao mesmo tempo agora.


A convivência de opostos se estende em várias camadas: no momento em que Platel coloca seus bailarinos a cantarem ao vivo, a imantarem suas coreografias com personalidade própria, é apagada também a fronteira entre homem e artista, entre criador e obra. Não por acaso, os bailarinos de “Out of Context” saem do meio do público, vestidos em roupas comuns, para subirem ao palco e desempenharem por 90 minutos o papel de artistas.


“Out of Context” se inicia com os bailarinos cheirando uns aos outros, como animais se reconhecendo. O reconhecimento evolui em todos os sentidos, concedendo a cada um o privilégio de expor habilidades individuais. O ponto alto é uma espécie de festa rave, com direito a karaokê. Essa cena é emblemática: um dos bailarinos está dublando um vocal glorioso, quando inesperadamente o playback para e sua voz, não tão afinada assim, ecoa  sozinha, sem a bengala da tecnologia. É um momento tão cômico como humanizador. A mensagem para o público está dada: não acreditem em tudo que está em cena, isso é um produto, uma recriação condensada da realidade. E ninguém se surpreende ao final quando as cortinas do fundo do palco se abrem e exibem a cabine de som, eviscerando a ilusão de espetáculo.


Ao longo de coreografias sempre bem executadas, que impressionam pelo trabalho simultâneo de duos e pela imprevisibilidade dos movimentos, a  companhia les ballets C de la B ensina a necessidade de se estar atento a tudo (a todo o contexto?). Outra cena de impacto, que remete ao trabalho de Platel como professor de crianças com necessidades especiais, que ele desempenhava antes de se dedicar à dança, coloca os bailarinos exibindo rostos deformados e movimentos imprecisos. No palco de Platel não há lugar para questionamentos politicamente corretos – não há culpa, melhor ou pior, normal ou anormal.


Os minutos finais garantem a carga emocional de um grand-finale. Enquanto todos os bailarinos, exceto um, vestem suas roupas “normais” e se preparam para deixar o palco, ouve-se a voz de Little Jimmy Scott cantando a obra-prima de Prince “Nothing Compares 2 U”. Não poderia ser melhor: a voz levemente rouca e quase feminina de Scott (confira o cantor americano interpretando “Nothing Compares 2 U” no post abaixo) esconde o drama de alguém que deve seu timbre excepcional à síndrome de Kallmann. Platel, seus bailarinos e Scott reafirmam o que Pina Bausch (a quem “Out of Context” é dedicado) ensinou: nada se compara a você, você é único, e é dever de todos nós nos descobrirmos, tanto no sentido de descobrir-se quanto de exibir-se. Sair da plateia e subir ao palco – ou vice-versa.
 

Little Jimmy Scott cantando “Nothing Compares 2 U”, de Prince. A canção encerra o espetáculo “Out of Context” do grupo belga de dança les ballets C e la B, dirigido por Alain Platel. Desculpem o tom brega do vídeo, mas foi o que conseguimos…

Comentário de “Viúvas” - A ilha da memória

“Viúvas”, em imagens de Cláudio Etges


Estava me sentindo viúvo do Ói Nóis Aqui Traveiz. Espetáculos do grupo, como “Fausto” (1994) e “Hamlet Máquina” (1999), foram (e ainda são) acontecimentos teatrais que me formaram como jornalista cultural e como espectador. As últimas montagens do grupo, entretanto, foram lidas por mim como reciclagem de fórmulas e como sintomas de um esgotamento estético. Até que assisti a “Viúvas”, em cartaz até dia 19, dentro da programação do 18º Porto Alegre Em Cena. (confira programação completa aqui)


Embarquei ressabiado no ônibus que levou o público até um cais do bairro Vila Assunção, de onde embarcamos em um barco rumo à Ilha das Pedras Brancas. O tema central de “Viúvas” – o destino dos desaparecidos políticos perseguidos pelas ditaduras latino-americanas – poderia com facilidade derivar para um discurso panfletário, preocupado em identificar mecanismos de lutas de classe e desmascarar o imperialismo ianque. Não que estas questões não sejam relevantes, podemos afirmar que elas seguem vigendo, ainda que de forma mais complexa e sutil. De qualquer forma, meu receio era que o resultado artístico fosse limitado pela veemência política.


“Viúvas”, entretanto, devolveu-me a reverência pelo Ói Nóis. A começar pela achado de assentar a encenação na Ilha das Pedras Brancas. Para quem não conhece, o pedacinho de terra de 100 por 60 metros serviu a vários fins, de prisão a laboratório de pesquisas, desde os tempos imperiais. Não poderia existir palco melhor para encenar a peça inspirada em texto de Ariel Dorfman e Tony Kushner: na trama, a indomável Sofia (vivida por Tânia Farias) é uma voz solitária a exigir satisfações sobre o desaparecimento de seu pai e de seu marido, confrontando o poder tecno-militar que oferece, em troca do silêncio e do conformismo, as benesses do crescimento econômico. Já vivemos essa situação antes, não é? E não era em uma ilha distante…


A encenação do Ói Nóis partem do conceito de que uma das principais armas de exploração e de opressão é a desterritorialização – controlar alguém torna-se muito mais fácil quando este não tem consciência de sua história, quando o que acontece em volta parece fazer parte de um grande teatro em que é impossível identificar o diretor. Se você realmente está integrado ao território (físico, econômico, social e cultural) onde vive, torna-se muito mais difícil ser presa da manipulação. Não é por acaso que as ditaduras via de regra acenam slogans como “Ame-o ou deixe-o”…


O diferencial, e que para mim representa uma evolução no trabalho do Ói Nóis, é que “Viúvas” traz elementos de humor e de emotividade franca que antes eram preteridos em favor de interpretações rigorosas, contundentes e sisudas. Na verdade, a empatia entre espectador e personagem, a despeito de tantas experimentações na encenação e na interpretação que marcam o teatro contemporâneo, ainda pode ser uma arma das mais contundentes.


Como é o caso da cena em que Sofia é criticada por suas amigas pela insistência em revolver o passado e em exigir a volta de seus homens (pai e marido). A cena acontece na lúgubre galeria onde ficavam as celas da ilha, e Tânia Farias imanta o público com emoção total – ela é a nossa consciência a bradar pelo nome de todos os desaparecidos, mas é também, e principalmente, a mulher-mãe-filha-avó com coragem emocional para expor despudoradamente seus sentimentos e lutar por eles. Numa imagem marcante, Sofia é soterrada por grãos de milhos (a prosperidade que a todos cala) mas não se entrega. Usando as mãos sujas do pó de milho, ela embranquece seu cabelo e inventa rugas no rosto – nesse momento, Sofia ganha ares de xamã, a quem o tempo não abate. Ainda na galeria, ela cata quatro grãos de milho para simbolizarem seu marido e suas irmãs. É a antítese da  tecnológica fábrica de fertilizantes – com a natureza na palma da mão, Sofia defende a humanidade contra os opressores de preto que se escondem atrás dos óculos escuros e espelhados.


Outro exemplo de que a leveza pode ser poderosa se dá na cena em que Sofia flerta com seu amado, durante um divertido e descompromissado baile, com bebida e pão de milho compartilhados entre a plateia. Não há necessidade de manifestos político ou estético – a convivência fala e discursa por si, a luta não é (ou vai além de) opor correntes ideológicas – a luta, em verdade, é entre a vida e a morte. No final, à margem do rio, a avó fala diante de uma multidão de cadáveres nus – impossível para mim não evocar a memória da capa da Folha de São Paulo que noticiava o massacre em Eldorado dos Carajás,  estampando uma carroceria de caminhão onde se estreitavam esquifes impessoais.


Em sua mensagem final, Sofia garante que “eles” não precisam ter medo dela, e remete para outra montagem do grupo, “Kassandra” (2002), quando afirma a responsabilidade com “aos que virão depois de nós”. Sofia sabe que é questão de tempo até que ela triunfe: sua munição é a memória, a paciência, a indignação e a humanidade. A poucos metros, o Guaíba contracena. O rio é como a história, correndo sem parar, passível de ser desviado durante algum tempo, mas nunca detido. Ai de quem se arvora em dono de um pedaço da história.

Sessão da Classe discutiu os caminhos da dramaturgia
Tive o prazer e a honra de mediar ontem uma Sessão da Classe de classe. O tema era Percursos da Dramaturgia, e os convidados, Ivo Bender, Diones Camargo e Jezebel de Carli. Estranhou a presença da Jezebel? Pois esse foi um dos grandes acertos da CAC, que organizou o encontro: a diretora de Hotel Fuck garantiu a interlocução entre dramaturgos (Diones e Ivo) e encenadores, e abriu o campo do debate.
A noite serviu também para o lançamento do 8º Concurso de Dramaturgia - Prêmio Carlos Carvalho, que nesta edição irá premiar autores gaúchos ou radicados no Estado. As inscrições para o concurso vão até 12 de dezembro de 2011 (confira o edital e detalhes aqui), e a premiação inclui R$ 8 mil e edição do texto vencedor.  Os jurados serão Bender, Eliane Tejera Lisboa e José Ronaldo Faleiro.Vou enumerar, por itens, os pontos que mais me chamaram a atenção no debate de ontem:
- Diones defendeu (apoiado por todos) a criação de um núcleo de dramaturgia. Segundo ele, só assim poder-se-á (!) estudar técnicas e afirmar a dramaturgia gaúcha no Estado e fora dele. Foi lamentado que o DAD não desse maior ênfase à área da dramaturgia, e Ivo lembrou que, no tempo em que o DAD mantinha uma cadeira desse tipo, surgiram futuros dramaturgos como Júlio Conte e Hermes Mancilha.
- Ivo, com a autoridade de quem melhor envergava cachecol e boné no encontro, além de ser, por detalhe, o maior dramaturgo gaúcho, defendeu o rigor na produção dramatúrgica e aproveitou para reclamar maior apuro técnico em nossas produções – segundo ele, uma das peças a que assistiu há alguns meses tinha no palco atores que sibilavam.
- Jezebel afirmou que prefere textos dramáticos mais abertos, mais amigáveis à ação do encenador (Beckett, com sua dramaturgia redonda e suas rubricas detalhistas, seria uma tarefa impossível).
- Marcelo Restóri, diretor do Falos & Stercus e atual coordenador do IEACen, apontou um descompasso entre os dramaturgos “tradicionais” (certamente referindo-se àqueles que defendem o texto como o centro absoluto do acontecimento teatral) e as inovações e experimentações que os encenadores contemporâneos arriscam nos teatros e espaços alternativos.
- Ivo ainda defendeu que os textos dramáticos sejam incorporados à leitura recomendada pelas escolas, em todos os níveis. A sugestão meio que perdeu força quando se comentou que a intimidade dos professores com o teatro, seja como espectadores, seja como estudiosos, não é das maiores.
- Newton Silva observou o pouquíssimo espaço que a literatura dramática tem como opção de editores de livros e livreiros – quando há coleções de dramaturgia, repetem-se os medalhões e esquece-se a produção contemporânea, enquanto a literatura sobre teatro e dança repousa na última prateleira à direita, junto à parede, rente ao chão…
- Diones e Jezebel levantaram um ponto decisivo: adianta escrever a peça se ela não ser encenada? Foi lembrado o recente Prêmio Carlos Carvalho Auxílio-montagem, que rendeu a montagem de Cara a Tapa pelo grupo vai!ciadeteatro, mas se pediu algum instrumento, eventualmente na forma de leituras dramáticas, que garantisse maior exposição aos textos.  - Ainda se debateram processos de criação, o respeito à dramaturgia consagrada (Ivo citou Racine e Aristóteles em meio à discussão), e a conversa pegou fogo quando se passou a comparar as dramaturgias para teatro e para cinema.
- Na reclamação por mais verbas, chegou-se a lembrar do recém-anunciado Prêmio Moacyr Scliar de Literatura, promovido pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) e a Associação Lígia Averbuck, que premiará o melhor autor nacional de livro de poesias publicado entre 2009 e 2010 com R$ 150 mil (a editora do livro receberá R$ 30 mil) (confira edital do Prêmio Moacyr Scliar aqui).
Estes são os principais pontos pelos quais a Sessão da Classe passeou. Se alguém lembrar-se de mais assuntos, por favor, complemente esse post ali nos comentários. Saí muito feliz de ver a plateia da Álvaro Moreyra acolhendo um público expressivo, numa segunda-feira de chuva. Seria o vinho que o coordenador Breno Ketzer e sua equipe ofereceram ao público e aos convidados? Brincadeira: na verdade, a dramaturgia, ou melhor, as dramaturgias fizeram uma pausa dramática rápida mas seguem vivas e mostraram sua força ontem. 

Sessão da Classe discutiu os caminhos da dramaturgia

Tive o prazer e a honra de mediar ontem uma Sessão da Classe de classe. O tema era Percursos da Dramaturgia, e os convidados, Ivo Bender, Diones Camargo e Jezebel de Carli. Estranhou a presença da Jezebel? Pois esse foi um dos grandes acertos da CAC, que organizou o encontro: a diretora de Hotel Fuck garantiu a interlocução entre dramaturgos (Diones e Ivo) e encenadores, e abriu o campo do debate.


A noite serviu também para o lançamento do 8º Concurso de Dramaturgia - Prêmio Carlos Carvalho, que nesta edição irá premiar autores gaúchos ou radicados no Estado. As inscrições para o concurso vão até 12 de dezembro de 2011 (confira o edital e detalhes aqui), e a premiação inclui R$ 8 mil e edição do texto vencedor.  Os jurados serão Bender, Eliane Tejera Lisboa e José Ronaldo Faleiro.
Vou enumerar, por itens, os pontos que mais me chamaram a atenção no debate de ontem:


- Diones defendeu (apoiado por todos) a criação de um núcleo de dramaturgia. Segundo ele, só assim poder-se-á (!) estudar técnicas e afirmar a dramaturgia gaúcha no Estado e fora dele. Foi lamentado que o DAD não desse maior ênfase à área da dramaturgia, e Ivo lembrou que, no tempo em que o DAD mantinha uma cadeira desse tipo, surgiram futuros dramaturgos como Júlio Conte e Hermes Mancilha.


- Ivo, com a autoridade de quem melhor envergava cachecol e boné no encontro, além de ser, por detalhe, o maior dramaturgo gaúcho, defendeu o rigor na produção dramatúrgica e aproveitou para reclamar maior apuro técnico em nossas produções – segundo ele, uma das peças a que assistiu há alguns meses tinha no palco atores que sibilavam.


- Jezebel afirmou que prefere textos dramáticos mais abertos, mais amigáveis à ação do encenador (Beckett, com sua dramaturgia redonda e suas rubricas detalhistas, seria uma tarefa impossível).


- Marcelo Restóri, diretor do Falos & Stercus e atual coordenador do IEACen, apontou um descompasso entre os dramaturgos “tradicionais” (certamente referindo-se àqueles que defendem o texto como o centro absoluto do acontecimento teatral) e as inovações e experimentações que os encenadores contemporâneos arriscam nos teatros e espaços alternativos.


- Ivo ainda defendeu que os textos dramáticos sejam incorporados à leitura recomendada pelas escolas, em todos os níveis. A sugestão meio que perdeu força quando se comentou que a intimidade dos professores com o teatro, seja como espectadores, seja como estudiosos, não é das maiores.


- Newton Silva observou o pouquíssimo espaço que a literatura dramática tem como opção de editores de livros e livreiros – quando há coleções de dramaturgia, repetem-se os medalhões e esquece-se a produção contemporânea, enquanto a literatura sobre teatro e dança repousa na última prateleira à direita, junto à parede, rente ao chão…


- Diones e Jezebel levantaram um ponto decisivo: adianta escrever a peça se ela não ser encenada? Foi lembrado o recente Prêmio Carlos Carvalho Auxílio-montagem, que rendeu a montagem de Cara a Tapa pelo grupo vai!ciadeteatro, mas se pediu algum instrumento, eventualmente na forma de leituras dramáticas, que garantisse maior exposição aos textos.

 - Ainda se debateram processos de criação, o respeito à dramaturgia consagrada (Ivo citou Racine e Aristóteles em meio à discussão), e a conversa pegou fogo quando se passou a comparar as dramaturgias para teatro e para cinema.


- Na reclamação por mais verbas, chegou-se a lembrar do recém-anunciado Prêmio Moacyr Scliar de Literatura, promovido pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) e a Associação Lígia Averbuck, que premiará o melhor autor nacional de livro de poesias publicado entre 2009 e 2010 com R$ 150 mil (a editora do livro receberá R$ 30 mil) (confira edital do Prêmio Moacyr Scliar aqui).


Estes são os principais pontos pelos quais a Sessão da Classe passeou. Se alguém lembrar-se de mais assuntos, por favor, complemente esse post ali nos comentários. Saí muito feliz de ver a plateia da Álvaro Moreyra acolhendo um público expressivo, numa segunda-feira de chuva. Seria o vinho que o coordenador Breno Ketzer e sua equipe ofereceram ao público e aos convidados? Brincadeira: na verdade, a dramaturgia, ou melhor, as dramaturgias fizeram uma pausa dramática rápida mas seguem vivas e mostraram sua força ontem. 

Ângela Mourão e Beto Militani em “BarbAzul”, foto de Vilmar Oliveira

Último dia do Festival do Teatro Brasileiro – Cena Mineira: no Teatro de Câmara Túlio Piva, 15h, “Pedro e o Lobo”, com o Giramundo Teatro de Bonecos; no Teatro do SESC, 18h, “Concessa Pendura e Cai”. Festival deve se encerrar com casa cheia: ontem, o Giramundo (conhecidíssimo dos gaúchos pela sua presença constante no Festival de Bonecos de Canela) superlotou o Câmara, e Concessa deve colher o boca a boca provocado pelas apresentações de “Concessa Tecendo Prosa”, no início da semana. O FTB tem patrocínio da Petrobras e apoio da Caixa. Abaixo, confira as impressões que colhi de “BarbAzul”, outra atração do festival, que esteve em cartaz quarta e quinta-feira no Teatro Bruno Kiefer.

Ao longo de 20 anos, o grupo mineiro Teatro Andante segue a mesma trilha: montagens despojadas em termos de cenários e exuberantes em teatralidade, elenco sempre a postos para atuar, dançar, tocar instrumentos musicais e brincar de clown, seja na rua, seja em um edifício teatral tradicional. A meta é clara: aliciar o público para embarcar em uma viagem movida a imaginação.

Nesse sentido, “BarbAzul” cai como uma luva. O texto original de Charles Perrault narra a história de um nobre de barba azulada conhecido por sua feiúra e pelo fato de que suas esposas desaparecerem misteriosamente meses depois do casamento. Certo dia, o hirsuto coloca sua barba azul de molho ao enamorar-se por uma jovem ingênua e impetuosa. Ela e Barba Azul casam-se, e o marido parte em viagem confiando à esposa todas as chaves da casa, mas exigindo que ela não entre em determinado quarto. Ou seja, praticamente ordena que a curiosa use a chave no aposento proibido. Resultado da lambança: a Caçula descobre uma coleção de esposas decapitadas, e escapa do mesmo destino por um triz quando seus irmãos a acodem no último momento e logram matar o Barba Azul.

Para recontar essa complexa história, que envolve mecanismos de sedução, papeis sociais do homem e da mulher e um indisfarçável sadomasoquismo que move o serial killer de barba anil, o Andante opta por uma simplicidade aparente. Em termos de cenário, contenta-se com um pórtico de metal, uma mesinha, um cabideiro de onde pendem vestidos e uma guitarra elétrica, que serve para fazer a trilha ao vivo.

Escrevo aparente porque esses recursos mínimos são explorados em toda a sua teatralidade. O pórtico, por exemplo, cumpre sua utilização previsível como umbral que limita o castelo, mas, ao ser jogado ao chão, garante uma cena linda quando é arrastado pelo palco como uma quadrilátero que limita(ria) os passos da fogosa noiva de Barba Azul.

Ângela Mourão (também diretora) e Beto Militani oferecem um espetáculo de técnica de voz, tons e movimentos, ora imersos no desvario da trama policial e erótica de Perrault, ora assumindo-se como Ângela e Beto e quebrando a quarta parede. O resultado é um espetáculo direto, fulminante, vórtex de 60 minutos. Um “BarbAzul” que pinta Barba Azul como um homem incapaz de fugir ao seu destino de oprimir as mulheres, mas que também alerta para uma violência talvez inevitável na relação entre macho e fêmea, elemento indispensável nos jogos de sedução e de sexo. Esse dilema fica claro na última cena, quando Ângela e Beto discutem frente ao público se o BarbAzul deve morrer mesmo, propondo quase uma cena de teatro-fórum.

Saí de “BarbAzul” muito satisfeito com a festa de teatro e de teatralidade a que tinha assistido, mas carregando uma inquietação. A opção do Andante de quebrar a quarta parede foi positiva ao enfatizar o caráter não fechado do julgamento do Barba Azul, ao reforçar o convite para os espectadores recriarem, cada um na sua fantasia, o próprio Barba Azul. Mas creio que esse recurso começa a se esgotar frente a um público cada vez mais treinado em ferramentas caras ao pós-dramático. Mas isto será assunto de um próximo post do Relato Mendonça.   

Chico Buarque “escreve” no Relato Mendonça

Chico Buarque por Gilmar Fraga

Ainda não ouvi o recém-lançado CD do Chico Buarque, mas o hype que percorreu a mídia, e a garimpagem feroz para descobrir o que na obra do carioca tem a ver com sua vida pessoal me levou a divagar.

A obra de cada artista só tem sentido se ela estiver afinada com a vida de seu criador. Uhn, afirmação perigosa: quer dizer que a Ivete Sangalo vai ter de andar de carro velho? Noel Rosa viverá maltrapilho? Chico Buarque vai arrumar o quarto de um filho que já morreu? Sem exageros, né? A imaginação é a grande casa de quem cria.

A respeito de criação e de Chico, confira abaixo o texto que escrevi em junho de 2004, colaborando com um caderno Cultura especial da Zero Hora sobre os 60 anos do compositor carioca.  O texto simula uma autobiografia de Chico, usando versos de suas canções. A ilustração acima é de autoria do meu caro amigo Gilmar Fraga

Chico com (quase) todas as letras

Meus caros amigos me perdoem, por favor / Se eu não lhes faço uma visita / Mas como agora apareceu um portador / Mando notícias nesse texto. Fazer 60 anos não é fácil, continuo procurando um lugar, uma espécie de bazar / Onde os sonhos extraviados / Vão parar / Entre escadas que fogem dos pés / E relógios que rodam pra trás. A vida, afinal, é como a mulher - curiosa, tonta e colorida. E olha que eu não peço muito: Pra mim basta um dia / Não mais que um dia / Um meio dia / Me dá / Só um dia / E eu faço desatar / A minha fantasia.

No início, lá por 1964, havia muita que exigia que eu ficasse trocando em miúdos o que pensava. Lembram da Carolina? Lembram que Caetano, Gil e os Mutantes achavam que eu era um alienado? Depois, todos nos tornamos caros amigos, mas houve um momento, lá por 1969, que deixei claro meu rumo. Rugi que eu queria não cantar / A cantiga bonita / Que se acredita / Que o mal espanta / Dou um chute no lirismo / Um pega no cachorro / E um tiro no sabiá / Dou um fora no violino / Faço a mala e corro / Pra não ver banda passar.

Lembram que época difícil? Era uma roda-viva, tipo aquelas em que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / … / A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda-viva / E carrega o destino pra lá. Lembra como era difícil mandar no destino, nos anos 70? O regime militar ainda não havia passado - longe disso. E lá fui eu, para Roma, com Marieta e as crianças. Cruzei o oceano mas deixei uma maldição para os que me perseguiam: “Você vai saber de mim / Mambembe, cigano / Debaixo da ponte, cantando / Por baixo da terra, cantando / Na boca do povo, cantando”. A saudade batia forte, me fazia mandar recados para a terrinha, me fazia pedir ajuda ao Vinicius para criar um lamento: “Vai meu irmão / Pega esse avião / Você tem razão / De correr assim / Desse frio / Mas beija / O meu Rio de Janeiro / Antes que um aventureiro / Lance mão”.

Mas nunca deixei de denunciar, não por gosto ou desfeita - mas porque a ética regia minha estética na época. Eles eram gente de rosto escuro: enterravam suas vítimas no mar. Eu reagia cantando a dor das mães de quem era supliciado: “Quem é essa mulher / Que canta sempre esse estribilho / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar”. Às vezes era engraçado, como quando mudei meu nome para Julinho da Adelaide. Tentei e consegui enganar Dona Censura, e o Brasil cantou amargamente “Que o bicho é brabo e não sossega / Se você corre o bicho pega / Se fica não sei não / Atenção / Não demora / Dia desses chega a sua hora”. Meus olhos cor de ardósia - pausa na modéstia - faziam tanto sucesso que eu podia chegar para um dos presidentes da República e dizer “Você não gosta de mim / Mas sua filha gosta”.

Meus versos, levei 60 anos para descobrir isso de coração, sempre andaram de mão com o brasileiro, foram um diário de uma nação. Como quando registrei a ressaca da campanha das Diretas, criando um samba com minha cabeça já pelas tabelas. Mas claro que ninguém se tocou com minha aflição / Eu via todo mundo na rua de blusa amarela. A partir dos anos 90, meu compromisso já não era tanto com a liberdade democrática, mas com a liberdade de criar, me orgulhava de desfilar na praça outra vez / Caminhando na ponta dos pés / Como quem pisa nos corações / Que rolaram dos cabarés.

Continuei jogando futebol, escrevi livros, fiz filhos e plantei esperanças, mas não deixo de sentir. Continuo tocado pela vocação de ser artista, tradutor da dor, caro amigo com talento. Sei que meus 60 anos estão multiplicados no peito de cada um de nós. E estou aliviado por confirmar que eu estava certo quando escrevi: “Imagino o artista num anfiteatro / Onde o tempo é a grande estrela / Vejo o tempo obrar a sua arte / Tendo o mesmo artista como tela”.

Mas não me levem a sério: fiz o que fiz só para poder, um dia, escrever um verso superlativo de despretensão. E vou aproveitar as prerrogativas de aniversariante até a última linha. Lá vai: “Tem um japonês trás de mim”…

Para construir este texto, foram usados versos das seguintes músicas de Chico Buarque: Meu Caro Amigo, 1976; A Moça do Sonho, 2001; Vai Levando, 1975; Basta um Dia, 1975; Trocando em Miúdos, 1978; Carolina, 1967; Agora Falando Sério, 1969; Roda Viva, 1967; Mambembe, 1972; Samba de Orly, 1970; Angélica, 1977; Acorda Amor, 1974; Pelas Tabelas, 1984; A Volta do Malandro, 1985; Tempo e Artista, 1993; e Bye Bye, Brasil, 1979.

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