“Flutuações”, em foo de Giancarlo Mecarelli
Na corrente da imaginação
Preparado para um choquezinho estético básico? A chance é hoje, 15h e 20h no Teatro Bruno Kiefer, na plateia de “Flutuações” do grupo fluminense Contadores de Estórias. Não uso a palavra choque gratuitamente. O coletivo comandado por Marcos e Rachel Ribas há 40 anos vem trabalhando na invenção de um ritmo e uma estética próprios. “Flutuações” é mais uma prova que conseguiram.
Já no programa, Marcos confessa que quer contar “uma estória sem pressa”. É isso que está no palco: a ação começa no Japão e termina em Paraty, no estado do Rio, mas os 60 minutos d espetáculo se passam mesmo na nossa imaginação, habilmente desacelerada pelos contadores de estória, repentinamente atenta aos detalhes, aos pequenos gestos, às grandes intenções que se escondem no cotidiano.
No início da carreira, Marcos e Rachel trabalhavam apenas com bonecos, depois incorporaram atores e bailarinos à cena. Isso potencializou o trabalho. Tentando explicar: você até pode tentar procurar algum tipo de narrativa em “Flutuações”, mas, desculpem o trocadilho, vai acabar boiando. O que deve ser buscado é a afinação com o clima da peça, com o jeito manso de contar uma história que não tem fim – nem começo – que é o aqui-agora. Aproveite a marcação de cena perfeita, o trânsito de cores e gestos delicado, a habilidade no manejo dos bonecos, a ausência de palavras.
Detalhando quando falo em potencializar. Um dos mecanismos clássicos do teatro é a possibilidade de o espectador se projetar em um personagem – isso dito sem entrarmos em méritos de pós-dramas ou dramas ou performances. “Flutuações” potencializa isso de várias maneiras. Primeiro, em cenas que contrapõem gestos de bonecos e atores – os humanos se desumanizam, ou é o contrário? Segundo, ao encenar suas já características cenas de sexo com os bonecos – delicadas e de um realismo impressionante, como sempre – Marcos e Rachel colocam provocam o espectador ao propor que ele se projete em um boneco. Seria mais fácil? O espectador se sente mais à vontade? Como eu poderia me projetar em um boneco?
Mas assista a “Flutuações” sem se importar com estas elocubrações estéticas: é inútil e desaconselhado buscar narrativa, sentidos ou intenções. Basta se deixar levar na corrente de imagens e surpresas que os Contadores de Estórias nos prepararam, e sair da Bruno Kiefer com um sorriso discreto mas persistente no rosto. É a sensação de ter sido parceiro de uma grande obra de arte.
Ingressos: R$ 20
Duração: 60 minutos
